De graça recebestes, de graça doai

Dom Caetano Ferrari
Diocese de Bauru

 

De graça recebestes, de graça doai. De graça recebestes, de graça doai.  O Ano Litúrgico da Igreja compreende o Tempo do Natal, o Tempo da Páscoa e o Tempo Comum ou o Tempo durante o Ano. Pois bem, a esta altura do presente ano, passaram-se os Tempos do Natal e da Páscoa, e estamos agora no Tempo Comum que vai até o Advento quando começará de novo o Tempo do Natal e, assem, abre-se o Ano Litúrgico de 2018. O Ano Litúrgico com o seu calendário próprio tem por finalidade levar os cristãos a vivenciarem durante um ano os diversos mistérios da fé, especialmente o mistério de Cristo com destaque para a sua Páscoa e nela a páscoa dos cristãos. Com outras palavras, durante o Ano, a Semana, o Domingo e o Dia de semana litúrgicos, a Igreja leva os cristãos a viverem em Cristo Jesus, caminho, verdade e vida, e, por isso, a se santificarem, a fazerem o bem neste mundo e, assim sendo, caminharem rumo à vida eterna, plena e feliz no céu. Nos domingos do Tempo Comum a Igreja celebra, particularmente, a Páscoa semanal, para vivenciarmos, como dito acima, a Páscoa de Cristo e a Páscoa dos cristãos. Os domingos litúrgicos nos ajudam a viver em Cristo, no dia a dia, pode-se dizer como pessoas “cristificadas”. São Paulo diz que devemos “formar Cristo em nós”, “revestir-nos de Cristo”, “trazer em nós a imagem de Cristo”, ser “alter Christus” (outro Cristo) (cf. Gl 6,17; Rm 13,14; 1Cor 15,49 e Fl 2,5).

No domingo de hoje, décimo primeiro do Tempo Comum, somos convidados a celebrar a Páscoa semanal tendo presente a mensagem bíblica tirada do Evangelho e corroborada pelas outras duas leituras. O Evangelho da Missa é tirado de São Mateus, no seguinte trecho: Mt 9,36-10,8. A mensagem evangélica vem da análise que Jesus fez da realidade social e religiosa assim como Ele a via ao seu redor, que O motivou a declarar que “a multidão estava cansada e abatida como ovelhas sem pastor, e que, por isso, Ele tinha por ela sentimentos de compaixão”. Aprofundando a sua reflexão, Ele disse: “A messe é grande, mas poucos os operários”. Indicando como linha prioritária de ação a oração, Ele disse aos seus discípulos: “Pedi, pois, ao Senhor da messe que envie operários para a sua messe”. Em seguida, Ele tratou logo de formar a sua equipe de trabalho, escolhendo e nomeando os doze discípulos, conforme São Mateus os identificou, a saber: Simão Pedro e seu irmão André; Tiago e seu irmão João; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus; Tiago e Judas Tadeu; Simão Zelote e Judas Iscariotes, o traidor. São Mateus acentua que Jesus deu aos doze poder de realizarem obras extraordinárias de cura, de perdão e expulsão dos espíritos maus. E que os enviou a evangelizar com as seguintes recomendações: “Não deveis ir aonde moram os pagãos nem entrar nas cidades dos samaritanos! Ide, antes às ovelhas perdidas da casa de Israel! Em vosso caminho, anunciai: ‘O reino dos céus está próximo’. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar!”

Com efeito, da mensagem bíblica de hoje destaca-se o tema vocacional. A primeira leitura – Ex 19, 2-6 – informa que o Senhor encarregou Moisés de anunciar ao povo de Israel que Ele, o Senhor, conferia a Israel uma missão sacerdotal com uma função de mediação a fim de que a salvação pudesse, enfim, chegar a toda a humanidade. Deus por Moisés disse a Israel: “Vós sereis para mim a porção escolhida dentre todos os povos, porque minha é toda a terra. E vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa”. No Novo Testamente, essa mesma missão Jesus a conferiu à sua Igreja, o novo povo de Deus. O Concílio Vaticano II reafirmou essa doutrina pondo em destaque o mistério da Igreja como Sacramento de Salvação e a vocação sacerdotal comum dos batizados dotados com um “sacerdócio real”, constituídos como uma “nação santa” e um “povo escolhido” (cf 1Ped 2,9). Jesus também instituiu o sacerdócio ministerial, escolhendo os que Ele quis, como os doze acima citados, e enviando-os a evangelizar, a santificar e a reger com poderes especiais conferidos de graça para de graça serem dados, pelo poder do Espírito Santo que enviou sobre eles, como prometera.

No discernimento da verdadeira vocação para o sacerdócio e a vida religiosa consagrada de irmãos e irmãs a Igreja sempre se deixou orientar pelo critério de que a vocação é dom gratuito de Deus que Ele dá a quem Lhe apraz, conforme o seu desígnio. É Deus quem chama preferentemente desde a juventude moços e moças para esta vocação, missão e forma de vida. À Igreja cabe tão somente acolher os vocacionados, discernindo com eles os aspectos importantes quanto à verdade da sua vocação, à sua idoneidade pessoal, às suas qualidades mínimas para o seguimento do mestre como seus discípulos e missionários. Se no exemplo dos doze eles tiveram que passar pela escola de Jesus durante três anos para receberem o Espírito Santo e ganharem a autonomia para o envio missionário, hoje, os seminaristas devem passar por uma formação nos seminários durante oito a dez anos, depois de concluído o ensino médio. A formação dos padres, especialmente na dimensão intelectual, psicológica, comunitária, espiritual e pastoral é longa e especializada.  Da parte dos fiéis, cabe sempre oferecer a Deus, o Senhor da messe, preces e súplicas por mais vocações e pela perseverança dos que se preparam nos seminários. Também pela saúde e perseverança dos padres, os religiosos e as religiosas, apoiando-os com a estima, a gratidão e o devido respeito.

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